“O Núcleo Maria da Penha da UENP é um dos mais importantes articuladores da rede de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica em Jacarezinho, que também conta com o CRAS e a delegacia da mulher”, destaca o coordenador do Numape, professor Fernando de Brito Alves. O projeto de extensão da Universidade Estadual do Norte Paraná, que atua no combate à violência contra a mulher, realiza, em média, 60 atendimentos psicológicos e jurídicos mensais em Jacarezinho, número considerado alto para a população de cerca de 40 mil habitantes.

“Há um tempo, passei por uma situação difícil em casa. Não sabia a quem recorrer. Estava até sem vontade de viver. Mas, no Numape, eu fui muito bem acolhida pela equipe e consegui ver as coisas de outra maneira. Obtive apoio na parte judicial e consegui atendimento com a psicóloga. Foi uma bênção na minha vida. Hoje, só tenho a agradecer todo o suporte que recebi, foi essencial pra minha recuperação”, relata uma das mulheres atendidas pelo projeto de extensão.

A psicóloga do NUMAPE, Isadora Bonani, relata que é impactante observar a situação como algumas mulheres chegam ao Numape. “Apesar de já ter feito outros trabalhos nessa área e, na graduação, já ter tido contato com situações de violência doméstica, me assustou um pouco ver, aqui, a que lugar uma mulher pode chegar por conta de uma relação abusiva, no sentido de ficar muito destruída, de ter a autoconfiança extremamente abalada, perder a autoestima. Aqui, recebemos casos de tentativa de feminicídio e é muito triste ver que mulheres morrem. É uma luta”, lamenta a psicóloga. “Mas tem um lado bom, que é ver o progresso de uma mulher ao se desvincular de uma relação abusiva. É gratificante poder observar a possibilidade de sair disso”.

Isadora acrescenta que, apesar de a violência física ser a mais evidente, há outros quatro tipos: a psicológica, a moral, a sexual e a patrimonial. “A violência psicológica é a mais comum. Geralmente, uma relação tóxica, violenta e abusiva não começa com a violência física. E ela é bem difícil de ser percebida.  O comum é que os parceiros inventem mentiras e a mulher comece a questionar sua racionalidade e a memória”, comenta.

Isadora acrescenta que um exemplo é quando a vítima diz ao parceiro. “‘Não me senti bem com sua atitude’, que, por sua vez, diz que ‘não é bem assim, é de tal forma…’. Isso pode ser um indicativo de violência psicológica, de ir envolvendo a mulher nessa teia de realidade que não é a dela. Até que, em determinado momento, ela se enxerga como louca e não acredita nos próprios sentidos. É importante que a mulher sempre confie no que sente”, alerta a psicóloga.

Em relação à violência sexual, a profissional de saúde mental também explica que, apesar de parecer óbvia, muitas mulheres não conseguem perceber que ela existe dentro do relacionamento. “Quando se diz ‘não’ e o parceiro insiste, já é uma violência. Violência sexual não é, necessariamente, estupro. Há outros tipos de violência que entendemos como sexual, principalmente dentro da relação afetiva”, pontua Isadora.

Para Isadora, a violência mais evidente é a física. “Ela começa com pequenas ações, como puxão de cabelo, aperto no braço. Depois com violências mais evidentes, como socos, enforcamentos, tapas. A última etapa é o feminicídio. É importante estar alerta a essas ações. Além disso, as ameaças não devem ser desacreditadas pelo suposto afeto do agressor. Na hora da tentativa de feminicídio, geralmente, a mulher leva um grande susto por nunca acreditar no que o homem seria capaz de fazer”, adverte.

Quanto à violência moral, a psicóloga inclui atitudes como difamação ou contar mentiras a pessoas próximas; já a patrimonial pode ser percebida quando o parceiro pega documentos, dinheiro ou, até mesmo, vende os pertences da vítima.

 Atendimento multidisciplinar

A estagiária do Numape, Vitória Aguiar, ressalta a importância do núcleo por conta do atendimento multidisciplinar. “O Direito trata das questões de regulamentação de guarda, punição para o agressor etc, mas, sozinho, não pode resolver essas questões. A mulher precisa de um atendimento especializado. Vinculado ao atendimento psicológico, o atendimento jurídico pode trazer grande diferença para vida das mulheres”, ressalta.

Apesar de observar resultados positivos, a advogada do projeto de extensão, Gabrielen de Souza Silva Arantes, lembra que a luta pela sobrevivência das mulheres é diária. “É gratificante poder participar disso e ver o resultado do nosso trabalho. Por outro lado, é muito triste ver que muitas mulheres não conseguem se desvincular das relações. A luta, portanto, é diária”, conclui. Participam do projeto, ainda, a advogada Isabele Cristina Duarte e as estagiárias de Direito, Marcela Foloni e Ana Júlia Caldeira.

Numape

Criado em 2017, o NUMAPE atende mulheres hipossuficientes que residam na cidade de Jacarezinho. Um dos principais objetivos do projeto é assegurar a tutela dos direitos da mulher e a desvinculação do agressor. Para isso, a iniciativa conta com uma equipe formada por advogadas, estagiárias de Direito e psicóloga.

Para o coordenador Fernando Brito, o projeto criou a oportunidade de articular teoria e prática para os alunos da graduação. “Além disso, é um programa de primeiro emprego para jovens advogados e atende, de forma especializada, as mulheres vítimas de violência da cidade.

O Núcleo Maria da Penha fica localizado no Centro de Ciências Sociais Aplicadas em Jacarezinho, na Avenida Manoel Ribas, 711, Centro. Para atendimentos, é necessário o preenchimento de uma ficha de triagem para fins de identificação e informação de renda, uma vez que o Numape atende mulheres hipossuficientes moradoras de Jacarezinho. Em casos que não são de violência doméstica e não se enquadram diretamente na lei Maria da Penha, como abuso sexual, o núcleo presta o auxílio jurídico e esclarecimento de dúvidas, além de encaminhar aos órgãos competentes.

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